CARTA ABERTA DE TRABALHADORES INDEPENDENTES EM DEFESA DA REORGANIZAÇÃO DA ESQUERDA CLASSISTA E COMBATIVA

É lugar comum dizer que os conflitos sociais se agudizam desde o estouro da crise do capitalismo (há pouco mais de uma década), que com idas e vindas ainda faz sentir seus efeitos. O ébrio discurso burguês que anunciava o ”fim da história” e do trabalho e uma “nova ordem mundial” dentro da “pax americana” deixou de fazer qualquer sentido, posto que a realidade entra em choque cada vez mais evidente com esse discurso.

Se num primeiro momento as ações coordenadas das principais potências imperialistas, somadas ao crescimento de alguns países periféricos do capitalismo – principalmente a China -, conseguiram conter os efeitos mais catastróficos dessa profunda crise, sua extensão temporal e profundidade fizeram com que essa coordenação entre os estados e setores da burguesia imperialista se rompesse. Vivemos cada vez mais um “mal estar na globalização”.

A guerra comercial entre China e EUA, que teve suas primeiras escaramuças em 2018, não é apenas fruto das políticas de “zigue-zague” da vulgar figura do presidente estadunidense, Donald Trump, ou das ambições por mais poder do líder chinês, Xi Jinping, como pinta a imprensa internacional. É, na verdade, expressão das contradições estruturais que se formaram durante as primeiras décadas da globalização neoliberal. Assim, a resolução desse conflito não se dará através do “diálogo” ou da “racionalidade”, ou mesmo pela troca das figuras centrais na política de ambos os países; mas, antes, o conflito entre os dois estados tende a se aprofundar, levando a contradições cada vez mais intensas na economia e na geopolítica.

A crise capitalista, em escala global, se manifesta em uma série de contradições que se acumulam no cenário internacional. O enfraquecimento da UE com a aproximação do Brexit, a ascensão da direita populista na Europa e a formação de grupos “neo-reformistas” com peso de massas são sinais de que as formas como se estruturou a globalização neoliberal até aqui não podem mais se reproduzir.

Soma-se a isso que, ainda que após um breve período de crescimento coordenado das principais economias mundiais durante o ano de 2017 e o começo de 2018 (em que os comentaristas econômicos da burguesia diziam que a crise finalmente teria sido superada), novamente sinais de tremores no capital financeiro deixaram os “mercados” abalados. Algumas economias ”emergentes” que eram vistas como modelos a serem seguidos (como a Argentina, com as contra-reformas de Macri, e a Turquia de Erdogan) sofreram ataques especulativos sobre suas moedas, o que pode prenunciar um novo ciclo mundial de quedas mais abruptas nas bolsas de valores e uma consequente maior profundidade da crise econômica.

2019 no Brasil: governo Bolsonaro, ataques e possibilidades de resistência

A combinação desses fatores leva a crer que 2019 será um ano de aprofundamento das contradições no cenário internacional, que não deixará de impactar em nosso país.

Com a politização acumulada em todas as camadas, setores e classes sociais desde as jornadas de junho de 2013 até aqui (politização que foi desviada e absorvida, por enquanto, pelas promessas do governo arquiconservador de Jair Bolsonaro, mas certamente não derrotada) cada novo fenômeno de instabilidade no cenário internacional deve influenciar fortemente no Brasil.

Um novo ciclo de intensificação da crise, um cenário geopolítico mais volátil e a agudização dos conflitos sociais (dos quais os conflitos na França a partir dos chamados “coletes amarelos” são apenas os mais impactantes no momento) são as previsões mais razoáveis para os próximos anos.

Se o governo Bolsonaro certamente representa um grande retrocesso em relação aos direitos sociais e democráticos, ele ainda não conseguiu dispersar e desorganizar a politização que existe entre amplas camadas da população brasileira. Se sua candidatura e campanha foram maneiras de buscar manipular e absorver, por parte das classes dominantes brasileiras, essa politização para dentro das instituições da democracia dos ricos, elas ainda não conseguiram fechar e superar as contradições que se gestaram a partir das jornadas de luta de 2013, algo que só será possível com uma profunda e contundente derrota do movimento de massas, o que até aqui não se deu.

Essa tensão e politização acumuladas, mesmo que de forma bastante distorcida, somadas à necessidade dos capitalistas nacionais de atacarem mais profundamente os direitos sociais e trabalhistas para buscar inaugurar um novo ciclo de acumulação capitalista no país, encaminham-se a ter um caráter explosivo no próximo período.

A desilusão com o governo de Bolsonaro tende a se aprofundar de forma rápida com os ataques que planeja e já executa contra a classe trabalhadora. A questão não é se haverá lutas no próximo período, mas se essas lutas repetirão o quadro das explosões descoordenadas e desarticuladas ou se existirão formas de organização e articulação que darão um sentido e objetivo comum para cada um dos conflitos parciais. Por isso, uma resposta organizada da esquerda que se reivindica classista e combativa se faz essencial.

Frente à falência mais que completa do petismo – que continua a ser um freio para qualquer tipo de mobilização popular e dos trabalhadores, mesmo depois de ser enxotado do poder após 13 anos de governo através de um impeachment realizado pelos seus antigos aliados – não é mais possível para nenhum trabalhador ou ativista confiar nesse partido como ferramenta para a mobilização. De instrumento distorcido para a organização da luta dos trabalhadores e oprimidos, há muito o “partido dos trabalhadores” passou para o outro lado da barricada, se tornando instrumento dos capitalistas para absorver e desviar as lutas.

A organização que, de forma mais imediata, poderia aparecer como candidata a ocupar o vácuo político deixado pelo petismo e se tornar referência de massas para as lutas e mobilizações, o Psol, tem escolhido trilhar caminho parecido. Se ligando cada vez mais à política e ao discurso petistas (e se calando diante das traições e paralisia que a CUT e CTB, centrais sindicais ligadas ao petismo, realizam até hoje, com destaque para o cancelamento das greves gerais em 2017), talvez “pintado um pouco mais de vermelho”, a direção do Psol vem perdendo, no último período, inclusive a aparência de independência em relação ao PT, se tornando, na prática, um apêndice da estratégia petista de desvio e manipulação do movimento de massas, enquanto disputa um ou outro espaço parlamentar inofensivo à burguesia.

Essas transformações do PT (completamente) e do Psol (parcialmente) em partidos da ordem burguesa, através da integração parlamentar e sendo freio das lutas, buscando reformar e “humanizar” o capitalismo e mantendo suas bases de exploração fundamentais, deve abrir espaços importantes para uma esquerda que se reivindica classista e combativa se construir e criar raízes junto aos trabalhadores e demais setores oprimidos da população.

No entanto, presos ao espírito de época da etapa anterior, pré-junho de 2013, carregando um enorme sectarismo, atuando ainda de forma rotineira, rompendo os poucos laços que tinham com a classe operária para privilegiar a sua construção quase que exclusivamente nos ambientes das universidades e da juventude de classe média, os grupos da esquerda atravessam hoje enorme crise, sendo, em geral, menores e menos influentes do que no período anterior às jornadas de junho, mesmo com as enormes possibilidades de construção que se abriram a partir dali.

A esquerda organizada perdeu a oportunidade de junho e não aprendeu com seu erro. Se manteve atrelada aos mesmos espaços elitizados, com suas atuações parlamentares e/ou sindicais rotineiras, isolando qualquer iniciativa séria pela auto-organização e ação direta dos trabalhadores e ficando para trás em todos os recentes movimentos de luta espontâneos que os trabalhadores e a juventude protagonizaram.

Junho de 2013, as ocupações das escolas em 2015, as paralisações nacionais do primeiro semestre de 2017, a paralisação dos caminhoneiros, são alguns exemplos de situações que surgiram por fora, apesar da participação da esquerda, e com as quais esta não soube se ligar, aprender e se reorganizar. Resultado: o divórcio histórico entre os locais de trabalho e moradia e as ideias e organizações de esquerda.

A classe operária, assim, se encontra órfã de qualquer alternativa organizativa. Frente aos ataques a seus direitos trabalhistas, sociais e democráticos, que certamente virão com o reacionário governo de Bolsonaro, não existe de imediato nenhuma forma organizativa que responda às necessidades de resistência.

A situação objetiva (política, social e econômica) avança muito mais rapidamente do que a capacidade das direções da esquerda de reestruturar uma ferramenta subjetiva (organização, partido, frente) com poder de impedir que a burguesia despeje os custos da crise sobre os trabalhadores e inaugure um novo período de exploração muito mais aguda contra os oprimidos.

É preciso superar rapidamente essa debilidade. Nós, que assinamos esta carta aberta, pensamos que essa alternativa organizativa, essencial para que nossa classe possa resistir aos ataques que certamente virão, não irá se erguer a partir do crescimento evolutivo e gradual de qualquer um dos pequenos grupos da esquerda que se reivindicam revolucionários hoje. Frente a uma situação em que as contradições e lutas tendem a se aprofundar, a passividade sectária e a adaptação derrotista que caracterizam a atuação dos pequenos grupos da esquerda devem ser superadas; o momento exige ousadia.

Nós, trabalhadores e ativistas independentes, publicamos este documento para contribuir com a necessária e fundamental reorganização da esquerda classista, pela via da luta de classes, para que possamos coordenar e articular as lutas que certamente virão.

Para os que assinam esta carta, existem duas propostas centrais sobre a forma concreta que deve assumir essa reorganização:

1) uma frente de esquerda dos trabalhadores, que seja um polo de aglutinação das organizações, dos ativistas e dos trabalhadores que querem construir um foco de resistência efetivo aos ataques, rompendo com a passividade e imobilismo das direções petistas e psolistas, tendo como modelo aproximado a FIT (frente de esquerda dos trabalhadores, na sigla em espanhol, bloco de partidos de esquerda que se apresenta como alternativa aos partidos patronais, na Argentina); e

2) um partido de trabalhadores independente, ligado às organizações de base da classe trabalhadora e demais setores oprimidos, composto exclusivamente por quem não obtém seu sustento através da exploração do trabalho alheio, e que, rompendo com as direções burocráticas e pró-patronais nos sindicatos e organizações nos meios da classe trabalhadora, possa se alçar como efetiva alternativa para a organização das lutas e para o combate político (e não apenas sindical ou “econômico”) contra os patrões.

Essas  propostas, no entanto, não são, de forma alguma, um ultimato. O essencial é que todos que se reivindicam parte de uma esquerda classista e combativa, que querem resistir efetivamente aos ataques que certamente virão, rompendo a passividade e imobilismo das direções do PT e PSOL, tenham clara a necessidade da reorganização da esquerda classista a partir de um polo de aglutinação. As formas concretas através das quais essa reorganização se dará serão fruto do acúmulo dos debates e discussões.

Também não pensamos que a reorganização da esquerda deva apagar ou escamotear as diferenças e os debates estratégicos entre as organizações e os ativistas. Pelo contrário, ela será uma plataforma a partir da qual os debates ganharão sentido concreto, buscando ser parte da construção de uma alternativa efetiva para a luta real dos trabalhadores, e não os debates acadêmicos inofensivos que são hoje.

Pensamos que será no próprio debate que se forjará o programa e estratégia para a luta, desde que haja efetiva democracia interna no movimento, onde todos os grupos, ativistas e trabalhadores independentes efetivamente comprometidos com as lutas da classe operária possam ter voz. E, desde já, nós que assinamos esta carta pensamos esta iniciativa como uma forma de propiciar um pólo de discussão sobre as visões de programa, estratégia e tática para a libertação dos trabalhadores.

Dirigimos este chamado a todos os trabalhadores e ativistas independentes e aos grupos e partidos da esquerda classista e combativa, como forma de pressionar e pautar essa discussão urgente entre os militantes das organizações de esquerda e nós.

Apontamos, no entanto, que nenhuma reorganização é possível com aqueles ditos de esquerda, mas que há eras pularam para o barco do inimigo, traindo os interesses dos oprimidos, como PT e PCdoB. Qualquer reorganização deve, em nossa visão, se dar em ruptura aberta e clara com o que representou a farsa criminosa da “conciliação de classes”, a conciliação com o inimigo, que nos trouxe a esta crise e a Bolsonaro, ou seja, a política que moveu o PT e PCdoB nas últimas décadas e que hoje move a direção do PSOL (como vimos nas declarações de Boulos pela “civilização” dos bancos e que “patrão não deve ser demonizado”).

Não existe liberdade política sem liberdade econômica. A conciliação de interesses entre trabalhadores e patrões pressupõe que, nos tempos de “vacas magras”, é dos nossos direitos e condições de vida que irão retirar o grosso dos seus privilégios, mantendo assim uma real escravidão econômica.

Os tempos se aceleram, os conflitos se aproximam. Como dizia o grande revolucionário francês, Danton: precisamos de audácia, audácia e mais uma vez audácia.

JANEIRO DE 2019

André Boff, demitido político do metrô
Dalton, professor da rede pública
Fernanda Moura, trabalhadora autônoma
Jaqueline Bastos, estudante
Juca Lima, trabalhadora de telemarketing e estudante
Julia Vertelo, desempregada
Lucas Silva, professor da rede privada
Lucas Tarradt, secundarista
Magrão, estudante da FSA e trabalhador precarizado
Natália Sia, trabalhadora e estudante
Nelson Neto, trabalhador precarizado
Paulo, bancário
Pedro Ribeiro, estudante
Rodrigo Lopes, trabalhador precarizado
Santiago Marimbondo, trabalhador precarizado
Wesley Castellano, estudante

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s